Brisanet testa filtros de banda C e vê eficiência, mas diz que é preciso olhar para o interior


Testes da Brisanet com antenas parabólicas na banda C

A Brisanet, maior provedor de acesso regional do Brasil e candidata declarada na disputa por frequências de 5G, tem realizado seus próprios testes de interferência entre as transmissões na faixa de 3,5 GHz e os serviços de recepção de sinais de TV via satélite (TVRO). José Roberto Nogueira, CEO da Brisanet, explica que o objetivo dos testes não é provar que existe um caminho melhor do que o outro para resolver o problema de interferência, mas reforçar os prós e os contras de cada um dos modelos possíveis: o da mitigação por filtros ou a migração para a banda Ku.

O interessante dos testes da Brisanet é que eles estão sendo feitos considerando a típica realidade de uma cidade no interior do País, em que a recepção dos sinais de TV depende de parabólica e da banda C, pela ausência de retransmissoras terrestres. No caso, a Brisanet optou pela cidade de Pereiro (CE), onde fica a sede da empresa. É um pequeno município de pouco mais de 16 mil habitantes, sem prédios altos e cercado por montanhas.

Área de testes da Brisanet em Pereiro/CE. Pontos vermelhos marcam onde o sinal de parabólica foi afetado pelo 5G

Os testes foram feitos com um equipamento 5G da Nokia e com filtros de LNB (LNBFs) da Greatek. Segundo José Roberto Nogueira, nos testes considerando o pior cenário, que é a torre de transmissão com visada direta de frente para as parabólicas banda C, constatou-se interferências severas na recepção dos sinais em parabólicas posicionadas a até 1,5 km de distância. Mas com os filtros essas interferências foram completamente mitigadas.

Pereiro tem a maior parte de sua população em zonas rurais (cerca de 2/3 da população), e pela topografia montanhosa não foi possível testar se a interferência vai além desse raio, mas Nogueira acredita que sim. “A lição que a gente tira é que a interferência é de fato um problema sério, mas que o filtro funciona muito bem”, diz ele, que ilustra com um vídeo de um caso real.

Vídeo produzido pela Brisanet mostra os efeitos das transmissões de 5G na recepção de sinais de TV via satélite. Na esquerda, uma TV com receptor de banda C analógico. Para a direita, uma antena com receptor de banda C digital. As duas TVs da direita mostram a eficiência dos LNBFs (filtros)

Outro aspecto importante é que na área que a Brisanet usou para testar existem centenas de residências com parabólicas, como pode ser facilmente observado nas fotos feitas pela empresa. “Essa é a realidade na maior parte das cidades aqui do Nordeste. No interior, quase todo mundo depende de parabólica para receber os sinais de TV, principalmente na área rural”. Para José Roberto Nogueira, é fundamental pensar nesses mercados mesmo quando se fala em 5G. “A gente tem certeza de que o 5G vai ser muito importante em pequenas cidades também, então não dá para achar que será necessário instalar filtros só em poucas antenas. Tem muita gente em cidades pequenas que pode ser afetada pela interferência”, diz ele. A Brisanet tem hoje mais de meio milhão de clientes com acesso fibra ótica e 5 mil funcionários.

Mas ele chama a atenção e que os valores de mercado para a instalação de filtros podem estar acima das práticas que se encontra pelo interior. “Aqui, um técnico para instalar um filtro em uma parabólica de banda C ou para instalar uma banda Ku cobra mais ou menos a mesma coisa, em torno de R$ 40 por instalação”.

Presença de parabólicas de banda C é a regra em municípios como Pereiro/CE, mesmo em zonas urbanas

Preferência pela banda Ku, mas há ressalvas

José Roberto Nogueira diz que a Brisanet até considera que o modelo de migração do serviço de TVRO para a banda Ku pode ser mais interessante, por já possibilitar a digitalização dos sinais de TV e por liberar mais frequências futuramente para o 5G, mas chama a atenção para alguns desafios. “Se for migrar todos os canais para a banda Ku, tem que lembrar que terá que fazer isso para toda a zona rural que é muito dependente do satélite. São 10 milhões de lares, no mínimo, que vão perder a banda C e não terão muito benefício com o 5G, então são pessoas que precisarão ser observadas em alguma política pública, diz Nogueira.

Ele chama a atenção também para a necessidade de uma reflexão sobre como será essa migração. “Vão estar todas as emissoras abertas? A Globo vai estar lá? Vai ser de graça? São questões que fazem muita diferença e que terão impacto na vida das pessoas”, reflete, lembrando que existe uma grande vantagem que é a digitalização do sinal de TV.

Para José Roberto Nogueira, também é preciso considerar que a migração de banda Ku implicará trocar os receptores, e não só antenas e LNBs. Mas ele acredita que os custos serão menores do que os que estão sendo colocados. “O governo pode fazer uma grande reserva junto aos fornecedores e ir comprando aos poucos, e já exigir que eles sejam entregues nas cidades, para diminuir o custo”, diz

Ainda assim, na estimativa da Brisanet, uma migração para a banda Ku custaria cerca de R$ 2 bilhões, enquanto a instalação de filtros custaria perto de R$ 1 bilhão. “Faz diferença, mas isso tem que estar bem claro na hora que a Anatel for tomar a decisão”.



Fonte Teletime